Testemunho de A.P

Sou uma mulher de 62 anos, funcionária pública e sou jogadora compulsiva em recuperação, a caminho dos 13 anos.

Vou contar um pouco da minha história de vida para poder ajudar outros jogadores compulsivos como eu.

Sou filha única e tive uma infância sem faltas de nada material nem de alimentação, mas com um pai ausente por motivos de trabalho e de amantes.

A minha mãe por sua vez era costureira, com muitas raparigas aprendizes. Na altura as mães das jovens pediam às costureiras/cabeleireiras para aprenderem a profissão.

Era uma casa cheia de clientes e não poupavam as crianças de assuntos que me meteram medo.

A minha mãe todos os dias batia-me e o meu pai nem um beijinho ou um carinho eu me lembro de me ter dado. Faleceu com 60 anos vítima de cancro.

Eu gostava muito de jogar à bola e andar de bicicleta. Jogava à bola com os meus dois cães, um deles chamado Carocho e o outro Boneco.

Desde que me lembro sempre tive uma relação muito próxima com os meus cães e um gato muito especial.

Entretanto fui crescendo neste ambiente onde os afetos não tinham espaço e a minha mãe sempre foi comigo matriarca, impulsiva e os problemas que tinha na vida cotidiana era em mim que descarregava... Nunca me bateu com as mãos e ela era forte de osso, nem o meu pai tinha a estrutura óssea dela.

Entro na Escola primária e tive uma das piores professoras... sempre altiva de régua grossa na mão, quando chegávamos do intervalo ou por cada erro que dava num ditado a régua funcionava. Ainda hoje sinto aquelas reguadas nas mãozinhas frágeis da criança magrinha que era...

Passei para o 2º Ciclo e adorava o desporto coletivo. Jogava Rugby, Basquetebol, Andebol, Futebol, Voleibol, etc. Com aquela adrenalina eu esquecia tudo e era onde me sentia feliz devido à adrenalina que me dava. Ficava ""cega"", só tinha olhos para a bola. Tinha um grupo de ""fãs"" que faltavam às aulas para me verem jogar.

Tive o meu 1º namorado no 2º Ciclo. Gostávamos muito um do outro. Foi o meu 1º amor que me fez sonhar muito, até eu ir para o Liceu e ele ter ficado retido no 9º ano. O sonho terminou quando eu soube que com a minha ausência arranjou outra namorada, mas nunca deixou de me visitar no liceu... Nunca mais cedi às tentativas de reconciliação com ele... acabou por casar com a outra.

Passado é passado e comecei a ter muitos pretendentes, mas o meu coração estava ferido e não havia espaço. Os meus amores eram platônicos e para o desporto. A bola eu sentia e com os amores platónicos sonhava e adormecia.

E a vida continuou e calhou-me na rifa outro namorado que a relação durou dois anos. Frequentava a minha casa... sofri de maus tratos psicológicos, era obcecado por mim, perseguia-me, queria dar-me o céu e a lua, mas deu-me a conhecer o inferno por muitos anos de perseguição...

Nunca fui feliz no amor e todos os relacionamentos que tive, foram tóxicos e abusivos... Já desisti... já percebi que a minha missão na Terra não passa por relacionamentos amorosos e como quem diz que ""quem não é feliz no amor é no jogo"", eu comecei a frequentar os casinos... A primeira vez fui inserida num grupo de amigos que festejou o seu aniversário. Não achei muita piada... a 2a e 3a vez igual, fui por arrasto, mas ganhei 5 contos na altura e aí sim comecei a achar tudo muito engraçado... Ou ganhava ou nunca perdia. Que fixe encontrar o ""céu"" em vida onde a minha adrenalina estava em alta!

Andei a jogar cerca de 5 anos ludicamente, mas nesses 5 anos treinei a minha compulsividade no jogo. Joguei cerca de 20 anos compulsivamente. Eu trabalhava e o dinheiro era todo direcionado para o jogo, tinha quem me pagasse as contas e a compulsividade foi aumentando a ponto de não saber estar bem em lado algum a não ser no casino. Gastei dinheiro de heranças que recebi, gastei dinheiro do cartão de crédito, ordenados, subsídios de férias, Natal e do IRS... Durante 20 anos estive acorrentada ao ""meu grande amor"" o jogo! Mais tarde percebi que foi o meu maior inimigo. Afetou-me financeiramente e na saúde mental e física.

Trabalhava, se o dia corresse bem ia festejar, mas se o dia me corresse mal também ia festejar no casino. Saía de lá quando fechava e quando chegava à cama só ouvia as máquinas na minha cabeça... não dormia e tinha que me levantar para ir trabalhar para ter dinheiro para jogar... De início ganhava ou não gastava, mas isso foi de início. Depois era só gastar. Se numa noite eu perdia 600 euros, na outra noite ganhava 20€ e esquecia-me do que tinha perdido na noite anterior e lá vinha muito feliz com mais uma noite sem conseguir dormir. O jogo vivia na minha cabeça 24 horas por dia.

As insanidades que eu cometia e nem consciência disso eu tinha.

Eu andava extremamente cansada e dizia todos os dias, já não volto... no outro dia estava lá. Eu era um robot telecomandado pelo maldito jogo... não comprava nada para ter dinheiro para jogar, tinha a autoestima abaixo de zero, uma autêntica loba solitária. Até que no dia 19 de agosto de 2011 (a minha última aposta) eu disse que nunca mais volto.... gastei o dinheiro todo e tinha dívidas por pagar. E agora?!

Como o meu Poder Superior é grande e único, surgiu esta Irmandade de Jogadores Anónimos através de uma amiga que foi ""apanhada"" pela filha e foi obrigada a frequentar JA e a ter um Psicólogo especializado no jogo. Como a minha residência é no barlavento Algarvio, eu dividia as férias e comecei a frequentar as reuniões todas presenciais de JA.

Assim que lá cheguei via as pessoas rirem, descontraídas, um disse que já não jogava há 2 anos e eu pensava: 2 anos sem jogar??!! Eu não consigo viver sem o jogo!! Disseram-me que eu era a pessoa mais importante e eu pensei: devem estar a brincar comigo... eu que estou no fundo do poço sou a pessoa mais importante?!! Depois percebi que era a pessoa mais importante porque tinha admitido que era jogadora compulsiva e tinha pedido ajuda (o 1º Passo dos 12 Passos).

As primeiras reuniões não me fizeram sentido, mas nunca desisti e ao ouvir as partilhas de companheiros que fizeram aquilo que eu ainda não tinha feito, fiquei muito assustada (o medo bom), partilhava das lágrimas do desespero dos companheiros e foi assim, nunca mais desisti das reuniões e fui crescendo lentamente no programa. Percebi que afinal eu tinha uma doença para a vida. Tem a haver com a Dopamina e a serotonina do nosso cérebro, tal como uma pessoa é diabética porque o pâncreas não funciona bem.

Graças a esta Irmandade de JA eu renasci.

O jogo leva a três caminhos: Loucura, prisão e suicídio.

Também pensava que era um exagero, mas infelizmente nestas reuniões Zoom já foi comprovado isso. Suicidaram-se 2 companheiros, uma mulher de 42 anos, bancária, casada com 3 filhos e um companheiro com 32 anos bancário também. Ele era meu afilhado e foi um trauma para a vida! Ambos se suicidaram da mesma forma...

Nas presenciais passavam muitos companheiros, perdíamos o rasto deles, mas aqui no Grupo Renascer Zoom é muito mais intenso em todos os aspetos e desde que estas reuniões Zoom abriram devido ao covid, abrange todo o País, Ilhas e todo o Mundo. Estamos longe, mas mais perto uns dos outros.

Agora não consigo viver sem as reuniões e sou muito grata ao meu Poder Superior por ter sido Jogadora Compulsiva. Se não tivesse sido não tinha encontrado o meu caminho espiritual e os meus grandes e únicos amigos. É aqui que posso falar de tudo porque sou compreendida e ninguém me aponta o dedo. Somos todos iguais e temos que olhar para as semelhanças e não para as diferenças.

O Grupo Renascer Zoom é o maior grupo de Portugal, porque trabalhamos os afetos e praticamos os 12 Passos e as 12 Tradições.

Entreguei a minha vida ao meu Poder Superior para me guiar e ajudar outros jogadores que sofrem dentro e fora destas salas. O único requisito para pertencer ao nosso grupo de WhatsApp é ter o desejo de parar de jogar. Enviamos literatura grátis e somos uma família do coração.

E vou terminar o meu testemunho com a Oração da Serenidade: Concedei-me Senhor SERENIDADE para aceitar as coisas que eu não posso modificar, CORAGEM para modificar aquelas que posso e SABEDORIA para distinguir uma das outras.

Honestidade, humildade, generosidade e gratidão são os 4 pilares fundamentais para uma excelente recuperação para a vida e cá estarei sempre frequentando todas as reuniões até a minha finitude!!!

Espero ter ajudado todos os que estão em sofrimento com o meu testemunho.

A minha incomensurável gratidão a esta Irmandade de JA, a este programa, a mim porque aceitei a minha doença e ao meu Poder Superior que me guia, não só no jogo como também na minha vida pessoas! A força deste grupo, acreditem, tem feito milagres na vida de muitos.

Um dia sereno a todos com o Poder Superior (o Poder Superior é como cada um o concebe. Este programa é para Ateus, Agnósticos, Cristãos, etc.).

Beijinhos, abraços e + 24"