Testemunho de J.L.C.

Não quero falar somente do inferno do jogo 

Quero, em primeiro lugar, contar como foi a minha infância, adolescência e idade adulta, embora em traços gerais e não muito precisos, dada a distância de alguns acontecimentos.
Tenho na memória, a sensação dolorosa, quando pela primeira vez entendi, que a minha vida tinha um princípio e um fim chamado "MORTE".
Quando isso me acontecesse, ninguém saberia explicar o que se passava depois. Foi nesse mesmo dia, que percebi, a inutilidade de estar vivo, assim como a ineficácia de qualquer ação para vencer a morte.
Nada valia a pena, porque tudo se resumia numa caminhada inexorável, para um fim a que nenhum ser, podia escapar.
Lembro-me do vazio, da minha existência, e de como iguais e sem sentido, eram os meus dias de criança.
Pouco ou nada, ficou gravado em mim, durante longos anos, a não ser a ideia aterradora de que o fim estava ao virar da esquina. Mas mesmo, não fazendo nada para melhorar esta situação interior, os dias e os anos foram passando, e as coisas boas e más acontecendo. Não tinha objetivos, nem formulava sonhos futuros, porque o futuro tinha morrido antes de mim.
Passei por amores, casamento, nascimento de filhos, guerras, escolas, universidades, grupos profissionais, fiz desporto, ri, chorei, abracei, beijei, mas não vivi.
Durante muitos anos, sem saber, fui jogador compulsivo, as horas passadas a jogar, pelo menos, tinham algum significado.
Davam-me sensações várias, como a tristeza, a alegria, o medo, a ansiedade, e por estranho que pareça, até conseguia sonhar. Sonhava, como um dia iria sair como um vencedor. Isso nunca chegou a acontecer.
Quando tudo parecia definitivamente perdido, tomei conhecimento de um grupo denominado Jogadores Anónimos.

Comecei na 1ª reunião, com a certeza, de que me encontrava junto de pessoas que tinham um problema idêntico ao meu, no que dizia respeito à relação com o jogo e ao controlo da vontade, para parar de jogar.
Durante 25 anos, fizera, tentativas sem fim e promessas a mim próprio, que iria desistir, mas nada dava resultado.
Tornara-se uma maldição, não tinha amigos, família, dinheiro, afetos, vontade, de modificar a minha vida miserável, nem nutria qualquer espécie de sentimentos pelo meu semelhante.
Bem pelo contrário, o meu semelhante, era agora o meu pior inimigo. Instalara-se uma raiva, surda dentro de mim, que corroía o físico e o emocional, e me mantinha em guerra permanente, com todo o mundo, que aos poucos, ia deixando um vazio pintado de negro, que eu não sabia como preencher.
Durante dois a três anos, assisti a quase todas as reuniões de Jogadores Anónimos, mas a minha mente, combatia com agressividade, a maioria das coisas que eram ditas, como fazendo parte do programa.
Não raramente, criticava as partilhas dos meus companheiros, ou por as achar demasiado ortodoxas, ou porque nutria qualquer tipo de antipatia pela pessoa que as fazia.
Tinha deixado de jogar, mas em nada tinha melhorado a nível espiritual ou emocional.
Não posso assegurar o dia exato, em que de repente se fez luz, num caminho que parecia ensombrado, por opiniões diversas e regras que eu considerava infantis, se não mesmo ridículas; de repente, tornara-se o meu modo de vida.
Tinham-me ensinado a pensar, ou antes, eu tinha aprendido a não pensar da mesma forma.
Era o início de uma nova vida, como eu nunca sonhara poder vir a ter.
Lentamente, com a ajuda de todos os meus companheiros, fui fortalecendo a vontade, comecei a ouvir todos os outros e a seguir todas as sugestões que achava adequadas ao meu progresso espiritual.
Não seria a pessoa que me sinto hoje, se não fosse o programa dos doze passos, nem mesmo que nunca tivesse a doença de jogador compulsivo. Vivo o hoje, como se não houvesse amanhã e tenho fé que o meu Ser Superior toma conta de tudo aquilo em que eu não tenho controlo. Tenho uma vida cheia de momentos felizes.
Hoje, ao fim de muitos anos de sofrimento e dor, sou pai, avô, amigo, companheiro dedicado, e fundamentalmente, um ser solidário e sereno, aceitando tudo o que a vida, se encarrega de me reservar.
Por muitos anos, que me mantenha no programa dos Jogadores Anónimos, nunca conseguirei retribuir, nem um décimo, de tudo aquilo, que esta Irmandade me ofereceu.
Hoje o programa dos Doze Passos é a minha religião.