Testemunho de Rosalina

DO SONHO AO PESADELO

Sou Rosalina e tenho 66 anos.

Fui uma criança muito débil até m idade dos 7 anos. Mimada e protegida pelos pais e irmãos, principalmente, os 2 mais velhos. Nunca me faltou nada em termos de condições de higiene, alimentação e brinquedos. Mas, o mais importante, foram os valores transmitidos e o salutar ambiente familiar.

Tive um percurso escolar normal. A minha Mãe era analfabeta e trabalhava em casa no campo e o meu Pai numa fábrica. Estes fatores, contribuíam para que me tonasse numa jovem determinada, habituada a resolver os problemas, a conquistar e a lutar pelos meus objetivos. É evidente, que com o apoio dos deles.

Recordo-me que, com 14 anos, franzina, ia no comboio sozinha para o Porto estudar. Saía cedo de casa, às 7h, para estar nas aulas às 8h30,

Concluí o Curso com 16 anos e, como não tive colocação, fui para a fábrica fazer serviço de escriturária. Neste período, conheci o meu marido, nunca fui dada a aventuras amorosas, por isso, foi o único namorado que tive e ele também.

Aos 18 anos iniciei o meu percurso profissional, na minha área. Nesse mesmo ano, comecei a namorar.

Casei com 22 anos. Confesso que foi um casamento precipitado. Via nele um homem pacato, nada aventureiro e honesto. No início do casamento, as coisas não correram da melhor forma. Ele começou a demonstrar um comportamento muito conservado, não dialogava, não havia cumplicidade, apenas respeito e fidelidade de ambas as partes. Tentamos minimizar esse assunto e a relação foi "rolando". Sempre me considerei uma pessoa simples, honesta, mas tínhamos os dois uma personalidade em que imperava o Orgulho. Recordo-me que, muitas vezes, estávamos 15 dias e mais sem falarmos (só o necessário). Não cedíamos quando discutíamos e zangávamo-nos por coisas fúteis. Tive duas filhas que foram criadas num "berço de ouro", tiraram a licenciatura, tiveram carro e dinheiro para tudo o que era necessário. Tínhamos uma relação de "imãs". O pai era dedicado e presente, mas sempre com uma postura formal e dificuldade em demonstrar o afeto.

Inconscientemente ou não ele delegava todas as responsabilidades da gestão familiar e educação das filhas em mim. Pedia-lhe, muitas vezes, a opinião dele sobre várias situações ao qual respondia "Tu é que sabes". Talvez por comodismo e porque nunca foi habituado a gerir situações em solteiro. Foi sempre muito peotegido. O casamento entrou num processo de rotina, sem diálogo, cumplicidade, partilha e afastamento. Só quando íamos de férias ele "transformava-se". Dialogava, atencioso, bem-humorado, participava nos eventos entre outras coisas. Perdi a minha Mãe, com cancro. Emocionalmente, fiquei muito afetada. Andei no psiquiatra e até hoje nunca consegui deixar de tomar medicação. Com problemas de saúde pedi a aposentação antecipada.

O meu marido era mais velho do que eu 6 anos, cansado psicologicamente das funções que desempenhava, fez um acordo com a entidade patronal e veio para o fundo de desempego. Na esperança, que ele adotasse uma postura diferente comigo, que dialogasse e concretizássemos os objetivos que tínhamos traçados saiu tudo ao contrário. Ficou ainda mais fechado, mais ligado à família dele, às filhas a tudo o que rodeava, menos comigo. Começaram os conflitos entre nós e acusações do tipo: "tu és arrogante"; "só fazes o que queres"; "só falas com as tuas amigas";" estás aposentada e parece que estás a trabalhar"; "tens a mania" …. Ele deixou de concordar com tudo o que fazia ou sugeria.

Mesmo assim, passávamos alguns fins de semana fora de casa (era habitual). Em junho de 2015 fomos a um hotel que tinha um Casino. (já tínhamos ido lá várias vezes) passar dois dias e fomos até ao Casino tomar uma bebida. Nunca tinha jogado. Nesse dia coloquei uma nota de 5€, ele também e perdemos. Fomos para o quarto. Chateada porque tinha pedido o dinheiro, disse-lhe que ia lá novamente com 20€. Não concordou, mas fui sozinha. Meti a nota e a máquina começou a fazer barulho. Chamei o funcionário para perguntar o que se passava. Respondeu-me que saiu 200€. Pedi-lhe para tirar o ticket (não sabia), levantei o dinheiro. Cheguei ao quarto toda contente e disse-lhe, saiu-me 200€. Respondeu "seco e grosso", apenas. "podia ter saído 1 milhão, para mim não é dinheiro". Não me deu mais justificação e deixou de falar comigo até virmos embora. Pensei, para mim, sempre o mesmo mau feitio.

Não me recordo, mas andamos uns tempos sem falar (o costume). Em setembro, lembrei-me de entrar, novamente, no Casino. Meti 5€ e saiu-me 150€. Vim para casa e não disse nada como é óbvio. Mais tarde voltei a entrar lá, comecei a perder e não reparei nas horas. Não havia rede no telemóvel. Estava a perder 300€, olhei para o telemóvel eram 19h30 e tinha 6 chamadas não atendidas (marido e as minhas filhas) Saio, imediatamente, ligo-lhe e disse-lhe onde estava e o que aconteceu.

Disse-me que ia busca-me. As minhas filhas achavam que me tinham raptado ou tivesse tido algum acidente. Pedi desculpa aos 3, que compreendia perfeitamente a situação deles, mas que o fiz sem intenção.

Chegamos a casa num ambiente tenso e, como sempre, sem diálogo. A minha filha mais velha foi para casa dela. A mais nova, vivia connosco e chamou-me ao quarto dela. Perguntou-me se era a 1.ª vez que entrava ali. Disse-lhe que era a 2.ª vez. Isto, passou-se numa sexta feira.

No sábado, almoçamos todos em casa e quando terminamos o meu marido na frente de toda a família disse que queria conversar. Aí começou, O MEU PESADELO.

Chamou-me mentirosa, comparou-me a uma pessoa da família dele que deve dinheiro a muita gente que era uma viciada, entre outras coisas. Tivemos uma discussão muito feia e disse-lhe que não admitia que me chamasse mentirosa. Fui sempre uma pessoa íntegra, dei sempre o melhor mim, como esposa e mãe e, lhe tinha proporcionado uma vida, que muitos homens, desejariam.

A partir desse dia passei de Esposa bestial a besta. A minha filha mais velha nunca mais me perdoou.

Senti-me tão revoltada porque nunca percebi nada de jogo e fui insultada por uma pessoa, o meu marido, por quem sempre lutei para termos um casamento feliz e vivêssemos acima da média. Por isso, digo muitas vezes não consigo perdoar, nem esquecer.

Por vingança, comecei a frequentar o Casino. As discussões começaram a ser mais frequentes. Aí, sim, comecei a mentir, a manipular e a cometer loucuras de sair sozinha no carro, chegar às 5h da manhã.

Continuei a frequentar vários espaços físicos. Vários conflitos familiares entre marido e filhas. No dia 22 de dezembro de manhã de 2016, o meu marido voltou a discutir comigo. Tentei pôr termo à vida. Sobrevivi. Fiz várias terapias: terapia familiar no Porto, com psicólogo e, mais tarde com psicólogo, do IAJ. Estive num centro de recuperação, AA e NA. As condições de higiene, alimentação e o funcionamento do centro eram horríveis. Paguei 2200€ e 15 dias, depois, saí.

Os problemas foram-se agravando e a partir de janeiro de 2017, disse-lhe que íamos deixar de ter conta conjunta. Todo o dinheiro que havia nessa conta deixei no nome dele. Assim, ninguém me podia acusar que gastava o dinheiro junto pelos dois. Gastava o dinheiro da minha aposentação. Como já me tinha tornado numa jogadora compulsiva (sem o saber), continuei a frequentar o espaço físico. Ameaçou-me com o divórcio e acedi imediatamente. Vivi 1 ano no mesmo teto, na casa que era maioritariamente minha. Ele nunca saiu dela.

Surgiu um apartamento na cidade e comprei-o. Pedi empréstimo. Recomecei a vida do zero. Remodelei-o sempre a pedir dinheiro (aí não jogava). Apesar de ele ficar na minha casa com a minha filha mais nova, sem sair da zona do conforto, e de orgulho ferido porque me senti "abandonada" iniciei uma nova vida no meu apartamento.

Veio o Covid, sozinha, tive "a brilhante ideia" de aceder ao jogo on-line. O ano 2021 foi uma desgraça total, financeira e emocional. Comecei a pedir dinheiro a financeiras, amigos/as. A sanidade mental "vingou" graças a um animal que eu tinha adotado em 2019. A minha consciência achava que ninguém tratava do meu animal como eu, por isso, vivi em função dele e não cometi nenhuma loucura. Sempre paguei as minhas despesas. Muitas vezes, sobrava-me 20€ para comer até ao final do mês.

Contei a uma amiga a situação e, juntas, procuramos ajuda. Deram-me o contacto do Grupo Renascer JA. Conversei com uma companheira extraordinária. Deu-me todas as informações e literatura. Comecei a frequentar as reuniões, via zoom, em 2022. Fiz exclusão do espaço físico e on-line. Foi no Grupo Renascer que senti um alívio de poder partilhar a minha história sem ser criticada, acusada, rotulada……fiquei a saber que tinha uma doença para toda a vida "uma jogadora compulsiva".

Nessa altura, senti-me revoltada por já possuir várias doenças, felizmente controladas e, esta, não existe medicação.

Paguei as dívidas às pessoas particulares e fiz um plano financeiro que estou a cumprir.

Atualmente, encontro-me num processo de abstinência e recuperação já fez um Ano com a ajuda do Programa dos 12 passos e 12 tradições.

Agradeço do fundo do coração toda a ajuda que tenho recebido dos amigos/as da minha querida Madrinha, frequentando as reuniões, no Grupo JA RENASCER.