Testemunho de L. S.

A curva da minha vida 

 Tenho 52 anos e nasci em Lisboa e moro atualmente no concelho de Sintra

A minha infância foi normal onde cresci e fui educado numa família humilde e sempre quase com dificuldades financeiras com muitos sacrifícios por parte dos meus pais para que eu e o meu irmão tivéssemos uma vida normal. O dinheiro sempre foi pouco, mas a educação sempre a melhor.

Lembro-me de uma altura da minha infância, o meu pai que na altura trabalhava numa empresa X, teve vários meses sem receber ordenado, o que nos valeu foi a minha mãe que era cozinheira na empresa Y e que muitas vezes trazia para casa o que sobrava das refeições servidas aos funcionários dessa empresa. Sempre fomos os pobres da família, a família do meu Pai com mais disponibilidade financeira nunca nos ajudaram nas dificuldades que os meus pais atravessaram

Na escola, aluno razoável, sempre a passar com 2 negativas e nunca consegui entrar na Universidade. Fiquei com 12 ano, concluído à noite.

Pratiquei atletismo durante 20 anos até à altura em que casei.

Namoradas poucas tive, sempre fui muito reservado e tímido em pôr conversa com elas, e amigos também tenho poucos, mas foi no Padrão dos Descobrimentos que em 1996 conheci a mulher a qual casei 2x com ela

Casei em 1999 com 29 anos e vim morar para Sintra

Enquanto fazia o 12 ano à noite com 18 anos, de dia comecei a minha vida laboral. Trabalhei numa empresa de carnes, numa empresa de aguas a distribuir, numa carpintaria, num café… até em 1991 entrar na tropa.

Depois quando sai da tropa em Abril de 1992, entrei na empresa X, onde estive 20 anos.

No início de 2003 nasceu a minha princesa e o meu coração ficou maravilhado. O meu maior sonho tinha sido concretizado, ser PAI.

Foi uma gravidez de alto risco desde os três meses que só podia se levantar para a ir à casa banho ou às consultas medicas, a minha esposa que é epilética e que durante a gravidez teve vários ataques de epilepsia que embora medicada a gravidez proporciona mais ataques que o normal. E o maior susto foi em plena hora de transito na rotunda do Marques ter um após termos saído de uma ecografia, parei logo o carro na berma e tive de a ajudar durante essa crise.

Mas tudo correu bem com a nossa bebé e nasceu saudável.

Em 2007, a minha esposa, resultado de situações de bulling, assédio moral no seu trabalho, a falta de dinheiro para termos uma vida melhor, teve uma depressão profunda em que partia coisas em casa, chorava, arranhava-se e foi nesta altura que tentou suicidar-se com uma data de comprimidos. Ligou para mim nessa manhã em que eu estava a trabalhar e disse adeus e para que tomasse bem conta da nossa filha, e eu nesse momento caiu-me o mundo em cima.

Vim disparado para casa e, entretanto, telefonei a um grande amigo meu que morava na casa ao lado e felizmente ele estava em casa e conseguiu com que a minha mulher abrisse a porta e foi chamado o 112 e chegou a tempo ao hospital para limpeza do estomago.

Quando cheguei a casa nessa tarde, a nossa cama tinha a roupa escolhida para o funeral e várias cartas para entregar a amigos e familiares.

Até hoje estou para ultrapassar esse momento, embora possa compreender o porquê, mas para mim resolver problemas com a morte, está fora de questão. Eu por exemplo posso estar mau comigo mesmo, a viver na rua… matar-me, não. Esperarei pela minha hora….

Nos dias a seguir a minha mulher teve que ser internada numa clínica para que pudesse recuperar.

Eu até aos dias de hoje, continuo a pensar que a minha mulher poderá fazer o mesmo.

Basta ela vir triste do trabalho, porque o bulling ainda continua, embora em doses menores, mas continua, fico sempre com medo de que a minha mulher me diga adeus desse maneira.

Eu nessa altura tudo fazia para proteger a nossa filha que com 4 anos a ver a situação depressiva da mãe.

Durante cerca de algum tempo fui pai e mãe. A minha filha tinha de crescer.

E foi nesta altura que eu iniciei o JOGO, foi no jogo que por bem ou por mal que me refugiava para me durante momentos do dia não estar a pensar naquilo que quase que aconteceu e para ganhar dinheiro para termos uma vida boa. Em 2008 comecei o JOGO, como arma terapêutica de ajuda a mim mesmo, e sem nunca pensar nas consequências que poderiam vir a acontecer.

As maiores dívidas foram entre 2008 e 2012

Foi em Março de 2012 que aflito como estava dividas e empréstimos que marquei uma reunião em casa dos meus pais, com os meus pais, irmão e os meus sogros

Não quis que a minha mulher soubesse, para não se agravasse o estado de saúde dela, por causa do que poderia fazer a seguir.

Nessa reunião tive coragem e contei o que se estava a passar comigo. O valor das dívidas e pedi ajuda.

Ficaram tristes e desapontados com o que acabara de lhes contar...

Os meus pais liquidaram as dividas.

Uns dias depois, visto estar a esconder algo e não estar bem comigo mesmo, resolvi contar à minha mulher que como podem imaginar ficou triste, desapontada, mas pior ficou porque é que a exclui na tal reunião.

Nessa altura e apos terem ficado todos desapontados, num site de apostas, tanto euros lá gastei que até ganhei uma viagem à Lviv Ucrânia para ir ver um jogo de Portugal no Europeu de futebol que la se disputava nessa altura.

Fiz a pergunta à minha mulher que o mal já estava feito e que devíamos essa oportunidade de viagem. Que pergunta a minha, depois de tudo o que tinha feito… chamou-me doido e disse que nem pensar.

Contactei então o site de apostas e eles puseram na minha conta o valor apurado da viagem e deu para amortizar parte da divida.

Nesse ano de 2012, Junho, a minha mulher então pediu o divórcio, ao que respondi logo que sim e naquele momento de cabeça perdida, nem quis ouvir a explicação dela para o pedido de divorcio.

A explicação percebi mais tarde, que era somente para proteção dela e da minha filha no que tocasse a futuras dívidas que pudessem aparecer.

Saí e fui para casa dos meus pais.

O pior foi mesmo não estar todos os dias com a minha filhota, uma dor que tive de aguentar e não foi nada fácil. O divorcio foi amigável e entramos de acordo facilmente no que toca a eu estar com a nossa filha. O pior era mesmo quando eu entregava a pequena em casa da mãe, ela não me deixava sair da porta de casa agarrando sempre as minhas pernas e a chorar.

Eu era um caco por dentro, um caco por fora.

Entretanto em Setembro, no meu emprego e aproveitando eles me estarem a castigar psicologicamente e com processo disciplinar apos ter pedido matriculado erradamente uma viatura, fui falar com o administrador da empresa e disse que como não gostavam de mim então que tal fazermos contas de saída apos 20 anos de empresa. Eles disseram logo que sim, aqui também reparei que nem disseram fique aqui fique aqui, então sai e com a indeminização liquidei toda a divida aos meus pais que me tinham emprestado o dinheiro,

Em Outubro comecei a conversar com mais calma com a minha ex…e eis que começamos a namorar como 2 adolescentes e até as escondidas dos nossos pais.

Em dezembro de 2012, após pedido dela para voltar para casa… eu voltei logo nesse dia.

Mas passados uns meses, sem saber que doente estava, voltei ao jogo às escondidas de todos e após mentiras e mentiras volto a parar por algum tempo. E passado algum tempo volto de novo, com valores mais pequenos e com dividas mais pequenas, mas dividas eram. Volto a ser apanhado e sem mentir, assumi andar a jogar.

Aqui já trabalhava na segurança privada e foi nesta altura numa manhã que ao ir para o local de trabalho perto da Azambuja que ao sair da A1 capotei e fiquei com o carro meio capotado… pensei que estava a ir para outro lado, mas não, consegui sair so carro sem um único arranhão. Que sorte mesmo.

Depois disso e apos um tempo curto de ausência de jogar, eu e a minha esposa nos voltámos a casar em 2018 e eu estava controlado nessa altura. A minha filha ficou radiante com o nosso segundo casamento.

Mas os problemas no emprego dela com o assédio moral, com o porem em causa os problemas de saúde da minha mulher, o choro dela, o ir-se abaixo novamente, fez com que voltasse a jogar. Lá está, erradamente, o jogo era o meu refúgio de enfrentar problemas.

E eu nesta altura já estava a trabalhar num hospital como tripulante de ambulância e foi nesta altura do COVID que trabalhava quase todos os dias a fazer o transporte de doentes covid desde o início do covid. Doentes ventilados, a ver a serem entubados, a ver muitos a morrer ali ao meu lado, passei 2 anos terríveis que nunca pensei ver o que eu vi. Só mesmo nas series da tv. Eu no início do covid quando vinha a caminho de casa, eu chorava e chorava ao volante com o que estava acontecer e muito medo tive. Em casa pouco falava do meu dia a dia para não as assustar.

E isso foi mais uma razão para nos momentos de pausa me agarrar ao jogo, o jogo era o meu psicólogo.

A minha filha completa os 18 anos e eu contei tudo a ela e lhe pedi desculpas, e ela com lagrimas agarrou-se ao meu pescoço e eu prometi a ela que parei de vez.

Mas nem essa promessa, me iluminou a mente. Parei durante uns meses e eis que a doença cá dentro faz que volte a jogar e nova recaída sem pensar no juramento que fiz à minha filha.

E foi neste último Verão que após várias perguntas da minha mulher que confessei ter nova divida de jogo, a conta estava em valores negativos e andava a jogar com um cartão de credito.

Uma vez mais lhe faltei ao prometido… as ao mesmo tempo e após tantas hipóteses de ganhar ganhos em que em 20 jogos, acertava 19 e falhava sempre 1 jogo, cansei-me das mentiras. De dias e noites agarrado ao telemóvel, o que ganhava perdia e assim sucessivamente, cansei-me… se volto ou não ao jogo não sei. Eu não quero voltar

Sei que fiz sofrer muito a minha mulher e a minha filha, muito mesmo. Espero que algum dia me possam perdoar

Então no dia 7 de Outubro do ano passado a caminho de Fátima que lhe contei durante a viagem que estava farto do jogo. E aqui sim, assumi de vez a minha doença.

Nesse mesmo dia em Fátima rezei junto à nossa senhora de Fátima e ali lhe fiz o meu pedido de ajuda.

No regresso à noite, no site do ministério turismo auto bloquei-me nos sites de apostas desportivos, no placard também tenho o contribuinte bloqueado e a minha mulher tem acesso à conta dia a dia. E nesse mesmo dia às 21h15 entro no zoom dos jogadores anónimos.

No primeiro dia, tudo foi estranho, mas não desisti.

Este grupo me acolheu tão bem e estas reuniões fizeram-me abrir os olhos e ajudam a recuperar o tempo perdido de vida com esta maldita doença a devorar-nos.

Esta doença, fez-me desgastar a minha memória, tenho problemas cognitivos detetados pela minha medica de neurologia, onde por exemplo tudo o que podem estar a explicar, pouco fica cá dentro registado, ou seja, muita coisa já tenho que escrever apontar.

Lembro-me de coisas da infância, coisas antigas e coisas muito recentes, nem sempre me lembro, o cérebro não as regista.

Sei que a minha mulher e a minha filha podiam ter tido uma vida mais sossegada, mas esta doença não me permitiu passar mais tempo com elas em muitas coisas, até porque nunca tinha dinheiro para passeios, restaurantes, viagens, ferias.

Nunca viajámos os três para fora de Portugal, a minha filha todos os anos lembra isso….

E eu respondia sempre a vida iria melhorar, mas essas minhas respostas sabia que não as ia cumprir… sempre À espera que me saísse dinheiro para isso. O ciclo era esse jogar… endividar… ganhar… voltar a jogar… sair e voltar…

Tenho 52 anos e só espero que desta vez pare mesmo de jogar. Já estou em ajuda psicológica, a vontade ainda cá anda e tenho de a perder de vez e dar um futuro melhor sem jogo às mulheres que tanto amo cá em casa. Têm passado muito devido a esta minha maldita doença. E eu tenho que saber resolver os problemas da vida de outra forma.

Atualmente, já tenho ajuda psiquiátrica e também uma psicóloga e tenho claro os JOGADORES ANÓNIMOS que muito me tem feito ver as coisas de outra maneira.

As muitas reflexões e partilhas que aqui oiço, são parte da ajuda que eu precisava. Eu sei que esta doença é para toda a nossa vida, mas um dia de cada vez será sempre o meu pensamento ao acordar.

E deixo aqui uma frase para terminar a minha partilha

O SEGREDO DE SE CONSEGUIR, É COMEÇAR