Testemunho de E. A.

A curva da minha vida 

Sou técnica superior da função pública e tenho 64 anos. Nasci em África, adorava brincar na rua como era costume nessa época, dediquei-me aos estudos e nunca me interessei por jogo. Quando apareceu o totobola e mais tarde o euromilhões jogava esporadicamente. A primeira vez que entrei num casino foi numas férias quando passeava com familiares e amigos e, ocasionalmente passámos por um casino e entrámos. Achei aquele ambiente giro e fui jogar numa slot machine. Após algum tempo, uma luz acendeu e caíram muitas moedas da máquina. Tinha acabado de ganhar um prémio grande e, em vez de pegar naquelas moedas e ir embora, continuei a jogar. Achava que ia ganhar mais dinheiro, mas acabei por perder tudo o que tinha ganho. Alguns meses depois de ter regressado, entrei pela primeira vez num casino em Portugal. Foi no Estoril e tive a chamada "sorte de principiante". Pus pouco dinheiro numa slot machine e ganhei 100 contos (cerca de 500 euros). Era a segunda vez que jogava e tinha ganho em ambas. Comecei a jogar para me alhear de problemas pessoais/conjugais. Entretanto, os filhos foram crescendo e passaram a ir para discotecas. Era uma pasmaceira estar em casa à noite. Três anos depois de começar a jogar, tornei-me presença assídua no casino. Jogava a meias com uma amiga que tinha muito dinheiro e, para ir sempre com ela, acabei por pedir o 1º cartão de crédito e passei a ter conta-ordenado. Mais tarde, consegui um segundo cartão, um gold, que tinha um plafond grande. Não tardou muito até ficar aflita com os créditos. Apesar de já jogar compulsivamente durante o casamento, nunca deixei que o jogo interferisse na minha profissão e em casa. Para poder ir descansada para o casino, deixava o almoço e o jantar organizados. Não jogava aos sábados e aos domingos, no Natal, no ano novo e na Páscoa para estar em família. Respeitava todas as datas de família e sociais. Sempre tive óptimas relações afectivas com os meus filhos e os meus pais. Há quase 19 anos tive um grave problema de saúde, que deixou sequelas e deixei de poder exercer a minha profissão. Pedi a reforma por incapacidade, que foi recusada, e tive de meter uma série de baixas. Não muito tempo tempo depois, pedi o divórcio. Vivi um ano e meio com um dos meus filhos numa casa alugada e, mais tarde, comprei uma casa e passei a viver sozinha. Aí, tudo começou a ficar mais descontrolado. Ia ao casino quase todos os dias. Chegava a levantar-me da cama uma hora depois de me deitar. Vestia qualquer coisa por cima do pijama e ia jogar o resto da noite. Muitas vezes saí do casino a chorar copiosamente. Dava murros no volante do carro e fechava os olhos enquanto conduzia a grande velocidade. Tive dois acidentes. Numa fase final, cheguei a pensar em matar-me várias vezes com comprimidos que punha dentro de um copo. Foi o meu cão que não o permitiu. Atirava-se para cima de mim, lambia-me a cara e uivava enquanto eu estava sentada no chão, em desespero, às 4 da manhã. Não sei se os cães têm um sexto sentido que os leva a antecipar certos acontecimentos. É algo difícil de explicar. Nessa altura, o meu ordenado já quase só dava para pagar os créditos e a prestação da casa. Quando o meu ordenado era depositado, transferia logo o dinheiro referente a essas despesas fixas. Nem sei como é que ainda conseguia pagar parte do lar onde a minha mãe estava. Apesar de estar num buraco negro, nunca deixei de honrar os meus compromissos. E nunca vendi nada para ter dinheiro para jogar, nem o meu ouro nem o que a minha mãe me deu, mas tudo era uma questão de tempo.... Se tivesse continuado ao jogar não sei o que teria acontecido. Fiz a minha última aposta há mais de onze anos, pouco antes de ir a um terapeuta, que me impôs uma série de itens, no fundo um contrato terapêutico. Tive de fazer a minha interdição no casino, tive de entregar o controlo do dinheiro a um dos meus filhos, fiquei impedida de me aproximar de locais de jogo ou de me relacionar com pessoas que jogassem e, para além das terapias com ele, fui aconselhada a frequentar reuniões de jogadores anónimos. É quase impossível alguém deixar de jogar sem ajuda. E eu tentei alguns anos antes e consegui estar 9 meses sem jogar.... mas um dia veio uma amiga visitar-me e acabámos por perceber que gostávamos de jogar e pronto....começou tudo de novo! Na última vez que fiz a interdição impressionou-me os semblantes tristes das pessoas com quem me cruzava à saída do casino. Isso fez-me ter ainda mais certezas de que não quero voltar a ter a vida que tinha há anos atrás. Mas não foi fácil abandonar o jogo. No início da recuperação senti-me várias vezes tentada a jogar. Cheguei a sonhar que estava a jogar e acordava transpirada, com medo de recair. O segredo é ocupar a cabeça com outras coisas, o que não é fácil para a maioria dos jogadores. Caímos num buraco negro, num vazio, porque tudo o que sabemos fazer é trabalhar e jogar. A minha vida mudou radicalmente. Retomei o gosto pela pintura, pela leitura, cinema, teatro e estou a escrever um livro. A minha vida tem um novo estilo de vida. Sou livre para escolher o que quero fazer cada 24 horas e uma das coisas que não quero fazer é voltar a jogar. A minha manutenção é frequentar as reuniões de jogadores anónimos e prestar serviço ajudando quem chega de novo e aprendendo com quem chega que não quero voltar a jogar.